terça-feira, fevereiro 03, 2004

Coca-Cola: Essa é a real!

Voltando em grande estilo depois de uma longa ausência... Ok, ok, sei que copiar e colar é um péssimo hábito, mas eu sempre coloco a fonte, e mesmo sabendo que o post ficou enooooooooorme, vale a pena ler do início ao fim. Aí está a íntegra da entrevista concedida por Laerte "Dolly" Codonho ao "OPasquim21" de 31 de Janeiro de 2004. Vai ter gente dizendo que o sujeito é um gaiato, um fanfarrão, e que tudo não passa de Teoria da Conspiração. Mesmo assim acredito que você nunca mais vai beber uma coca-cola sem lembrar dessas palavras, isto é, se é que você pretende continuar colaborando para o enriquecimento dessa empresa do demônio.


5° Semana de Janeiro

LAERTE CODONHO ENTREVISTA

LAERTE CODONHO

"NAO GOSTO DE BRIGA, MAS OS CARAS ME PROVOCAM"

Não se trata de uma revelação que pode mexer com os meios científicos internacionais; apenasmente, uma constatação que mexeu com os interesses ($$$) internacionais. Muito antes de dar o nome a uma ovelha, Dolly era uma cachorrinha de estimação da família Guaraná, desde 1987.

Guaraná? Não! Na verdade a família de tradição italiana proprietária da totó tinha como seu dono um jovem que, como todo cara de família de classe média paulista, foi para o mercado de capitais, depois de passar pela música, como o pai e irmãos, formou-se em economia, deixando a sua Dolly sempre em casa, na espera ansiosa do regresso do seu dono e, quem sabe, de novos passeios.

Na semana passada rolava o Fashion Rio cheio de belas manequins e de grifes famosas. As grifes brilhavam na passarela desfilando seus novos modelos para a próxima estação. Enfim, o Rio de Janeiro transformara-se, naquela semana cheia de sol, no olhar nacional do bom gosto. Na redação d'OPASQUIM21, convocados por Zezé Sack, mais uma pessoa para o entrevistão naquela hora relaxada, às seis da tarde do horário de verão. Adentra um personagem elegantíssimo, com um metro e noventa de altura. Certamente um ex-modelo que virou proprietário de uma grife famosa e que veio cumprimentar o Ziraldo, já que estava aqui na nossa São Sebastião e aparentava ter uns 40 e poucos anos.

Alinhado, simpático e falante, terno de cor grafite sob medida e com corte de extremo bom gosto, gravata acompanhando o preto dos sapatos, camisa branca com colarinho redondo e um tremendo suspensório, negro também, de fazer o Zélio ficar cheio de ciúmes e inveja...

Quem havia apostado que era dono de uma grife participante do Fashion Rio, errou. No entanto, quem desconfiava que era o proprietário de uma grife que aos poucos vai se tornando moda e famosa no Brasil, tinha acertado. Laerte Codonho é o feliz proprietário da Dolly, a cachorrinha e, também, de uma indústria nacional de refrigerantes que 'peita' a Coca-Cola e que foi o primeiro a produzir, depois de uma luta kafkiana, o primeiro refrigerante dietético do Brasil, o Guaraná Diet Dolly.

O escriba aqui é um velho diabético que pode atestar - sem ter recebido nenhum cachê - que se trata do melhor guaraná dietético do mundo, podem acreditar. Tem sabor de guaraná e é doce como o açúcar que a gente não pode consumir. Convido, portanto, os leitores a penetrar fundo nos sabores refrescantes de laranja, cola, uva e limão no entrevistão que foi amargo como um bom chimarrão e dieteticamente revelador com a descoberta de que existem brasileiros que teimam em defender e amar o Brasil com gosto de guaraná diet.

Laerte Codonho é um belo exemplo disso e, na realidade, só tem uma reivindicação: que o presidente Lula o receba para que possa saborear o seu guaraná, acalmando-se com aquele paladar maravilhoso, depois de tomar conhecimento dos documentos secretos que ele e a Dolly têm sobre a Coca-Cola. Afinal, quem tem medo de Virginia... Ou melhor... da Coca-Cola?

Nei Sroulevich

ENTREVISTADORES: ZIRALDO,ZEZÉ SACK,WAGNER MARTINS,ZÉLIO,CLAUDIA FURIATI,ARTHUR POERNER (chegou depois), MARLI GONÇALVES, VINICIUS ROCHA, NEI SROULEVICH, RICKY GOODWIN, CLAUDIO IUSI . FOTÓGRAFO: FREDERICO ROZÁRIO


ABRI A BOCA NA TELEVISÃO ÀS SEIS E MEIA. ÀS 11 MATARAM O SCHINCARIOL.

Ziraldo - Codonho vem de Portugal?

Laerte Codonho - Da Itália. Meus quatro avôs são italianos.

Ziraldo - Seu pai é o Odécio Codonho, compositor de jingles, né?

Laerte - Isso, do Trio Tamba-Tajá. Ele fez vários jingles, lembram daqueles da Petibon?

Ziraldo - Ele faz os jingles da Dolly também?

Laerte - Não, são da minha irmã. Tenho duas irmãs que largaram tudo e viraram cantoras. Uma era jornalista e a outra advogada. Eu fiz o contrário: larguei a música e virei empresário. Quando a família se reúne é só cantoria. Meu pai fala (com sotaque italiano): "Ôrra, todo mundo que é empresário tem um filho músico. Eu sou um músico que tem um filho que é empresário".

Claudia Furiati - Por que o nome Dolly?

Laerte - Minha cachorra.

Claudia - Não tem nada a ver com a ovelha?

Laerte - Não, a nossa é anterior, é de 87. Até nisso os caras copiam a gente.

Nei Sroulevich - É que essa Dolly clonada é da Coca-Cola.

Laerte - Daí a propaganda: "Ovelha por ovelha, fique com a original".

Ziraldo - Você lançou a Dolly em 87?

Laerte - Foi o primeiro diet do Brasil.

Ziraldo - Mas por que você entrou nessa se trabalhava no mercado de capitais?

Claudio - Sabe como é, Ziraldo, o sujeito fica rico, não sabe o que fazer com o dinheiro...

Laerte - É, eu queria me distrair, sempre gostei de inventar coisas, então foi uma brincadeira.

Ziraldo - Peraí, gente, vamos falar sério!

Laerte - Sou técnico agrícola e economista. Trabalhava na bolsa de futuros, na parte de commodities. Minha família é italiana, tudo gordinho, adora comer, ficaram todos diabéticos, então quando fui aos EUA e conheci o refrigerante diet achei uma beleza. No Brasil não tinha, havia um decreto-lei proibindo o uso de edulcorantes em bebidas. No cafezinho você podia pôr. Em chás, gelatinas, pudins, tudo bem. Por que isso? Porque o grande consumo de açúcar no Brasil é nos refrigerantes.

Ricky Goodwin - Era o lobby dos usineiros?

Laerte - E dos grandes fabricantes de açúcar. Conseguiram aprovar uma lei em 82 dizendo que edulcorantes só davam câncer em refrigerantes.

Nei - E só em ratos gays.

Laerte - Não, segundo as pesquisas deles dava câncer em ratos do sexo masculino. QUANDO O CONSUMO DE DIET COMEÇOU A SUBIR NO MUNDO, A INDÚSTRIA DE AÇÚCAR ENTROU COM UM ESTUDO PESADO MOSTRANDO QUE CICLAMATO PROVOCOU CÂNCER EM RATOS DO SEXO MASCULINO APÓS O CONSUMO DE 44 MIL LITROS DE REFRIGERANTE!

Ziraldo - Hoje o ciclamato está liberado no mundo inteiro.

Laerte - Inclusive pelo FDA americano. É o mais seguro.

Ziraldo - Me lembro que ciclamato chegou a ser sinònimo de veneno. Falavam que o sujeito ficava broxa.

Ricky - O Pasquim pubicou um anúncio famoso do Hermann Kahn - um americano que vivia dando palpite sobre a economia brasileira - que era ele, muito gordo, e o slogan "Ciclamato dá câncer".

Ziraldo - Aspartame não faz mal nenhum.

Laerte - Não sei, viu... De quem é o aspartame? Da Nutrasweet. Que é da Monsanto. Aí eu já... pode ser preconceito da minha parte, mas é que já estou tão acostumado com o jogo desses caras...

Ricky - Mas como você conseguiu lançar o diet se estava proibido?

Laerte - Naquela época tinha a figura nova do mandado de segurança. Fui pesquisar e vi que poderia entrar com um mandado contra o Ministério de Agricultura mostrando que era inconstitucional alguns produtos serem liberados e outros não. Vim na Coca-Cola conversar sobre isso com eles e tiraram sarro da minha cara. Se tenho cara de bebê com 43 anos, imagine com 26! O cara falou: "Você é um garoto esforçado, mas temos 180 deputados, 40 senadores, alguns governadores, agora vem você querendo sair com o diet na nossa frente..." Bom, fui no pessoal da Pepsi: a mesma coisa. Fui na Brahma: a mesma coisa. Na Antártica também.

Ziraldo - Você era um pentelho mesmo.

Laerte - Mas achavam que eu era um moleque babaca. Tá bom. Me associei a uma pequena fábrica do interior de SP, fiz o negócio, e não é que deu certo? Com a sentença promulgada, botei o primeiro diet brasileiro na rua.

Ziraldo - Botou como? Fez anúncio, outdoor?

Laerte - Trinta outdoorzinhos. Tirei foto... (posa sorridente e como se tivesse um refrigerante na mão), Imediatamente o Eldorado comprou. Foi um sucesso: refrigerante diet no Brasil! Sou um cara que vai até o fim, ainda mais quando sei que tenho razão no que estou fazendo. Vocês não sabem o que é ter uma criança diabética. Quer dizer, espero que ninguém aqui tenha. Um adulto diabético entende que nunca mais vai poder tomar refrigerante. Agora, uma criança, vai em todos os lugares que tem refrigerante e ela não pode tomar... é complicado.

Nei - Nessa mesa mesmo tem dois diabéticos. Fora os enrustidos que ainda não descobriram.

Laerte - Pode tomar então o Diet Dolly que é gostoso mesmo e não deixa after-taste.

Ziraldo - Onde era sua primeira fábrica?

Laerte - Boituva. Depois que a Coca-Cola foi lá perturbar, montei uma outra fábrica sozinho.

Ricky - Você foi a vários fabricantes com a intenção de lançar um refrigerante diet. Eles não tomaram nenhuma atitude ou acharam que você não ia dar em nada?

Laerte - Aí é que tá. No dia do lançamento - eu todo contente - li no jornal: "A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo proíbe a comercialização do Diet Dolly em todo o Estado". Fui lá então argumentar que eles tinham por base a lei mas havia uma decisão federal autorizando, e aí veio esta pérola: "O despacho do juiz fala que está autorizado a produzir, mas em nenhum lugar fala que pode vender"!

Zélio - Quem era o secretário de Saúde?

Laerte - O Pinotti. Foi aí que comecei a ver o poder que eles tinham! Ninguem queria mais comprar o Diet Dolly. Eu ia aos supermercados, mostrava a decisão federal, dizia que podiam comprar sim, até que finalmente um lugar comprou. Ali o negócio foi, foi, as pessoas foram pedindo, até que...

Ziraldo - Mas como é que você garantia a venda se estava proibido?

LAERTE - A PROIBIÇÃO ERA ILEGAL, EU TINHA UMA SENTENÇA FEDERAL, O PROCURADOR DA REPÚBLICA FALOU QUE SE NÃO FOSSE CUMPRIDA IRIA PEDIR A PRISÃO DO SECRETÁRIO. VOCÊS VÊEM QUE JÁ COMECEI COM CONFUSÃO E BRIGA. DOIS ANOS DEPOIS LIBERARAM O DIET PRA TODO MUNDO, MAS NUNCA CONSEGUI TRABALHAR TRANQÜILO. Aquele mesmo órgão fez uma proibição do meu comercial, dizendo que era propaganda enganosa. Não podia falar que o refrigerante emagrecia. E eu não estava falando que ele emagrecia mas sim que ele não engordava. "Não, você está sugestionando que ele emagrece..." Depois arrumaram uma garrafa... tenho como provar que qualquer um pode abrir qualquer garrafa e colocar alguma coisa lá dentro. A Coca-Cola é muito vítima disso.

Ziraldo - Arrumaram quem?

Laerte - Não posso acusar porque não tenho provas. Arrumaram uma garrafa que tinha uma sujidade, um carvãozinho embaixo. O que fizeram? Interditaram a indústria!

Nei - Por causa de uma única garrafa?

Laerte - A Folha de S.Paulo fez inclusive um editorial sobre o fato de haver dois pesos e duas medidas.

Ziraldo - A Secretaria de Saúde então te perseguia?

Laerte - Sem ter poderes para isso, porque o órgão competente no caso seria o Ministério da Agricultura. Na verdade eram aqueles que não queriam que a gente produzisse. "Como é que esse garoto babaca vai sair na frente da gente?" Imagina o desespero! Noventa dias depois saiu um laudo dizendo que a fábrica era exemplar. E a briga foi por aí, até que em 95 tiraram o produto do mercado novamente...

Nei - Na sua opinião, isso são ações do imperialismo contra o produto nacional? Você tem essa visão política?

Laerte - Tenho certeza disso! Foram essas mesmas 'forças ocultas' que tiraram meu programa do ar.

Ziraldo - Vamos falar sobre isso com calma, uma coisa de cada vez. Nós estamos em 87. Você se colocou no mercado paulista e começou a vender bem.

Laerte - No Brasil inteiro, todo mundo queria. Mas tentaram quebrar a empresa de qualquer jeito e meu sócio me falou: "Não vou pagar mais nada a você. Vamos tirar o produto do mercado".

Ziraldo - Ah, ele produzia e pagava a você pelo royalty da marca?

Laerte - E com isso construiu um prédio de 50 mil m2. Mas fui atrás e ganhei essa ação. Ele disse que eu ficaria sem dinheiro nenhum, mas fiquei com a marca e ainda teve que me pagar bastante. Foi ele quem quebrou.

Ziraldo - Você gosta de briga, hein?

LAERTE - EU NÃO GOSTO DE BRIGA, GOSTO DE TODO MUNDO! MAS PARECE QUE OS CARAS ME PROVOCAM!

Zélio - É a história do sujeito que dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair.

Laerte - De 88 a 93 fiquei brigando pra recuperar a marca.

Ziraldo - Sem vender nada?

Laerte - A marca não ficou na minha mão! Meu sócio produzia pouco e não me pagava nada. Não sei nem se isso não foi algum acordo. O Diet Dolly era vendido como um produto premium, três vezes o preço de uma Coca-Cola. Hoje a fórmula continua premium mas é muito mais barato.

Ricky - Qual é a fórmula da Diet Dolly?

Laerte - Não posso te dizer, mas contém vitamina C. Fiz um outdoor falando nisso e foi proibido: só medicamentos podem fazer propaganda de vitaminas. "Mas laranja tem vitamina C? Então não pode fazer propaganda de laranja?" "Não, não pode."

Ziraldo - Mas eu ainda tô impressionado com o sócio, que depois de entrar no negócio com você, resolveu que não ia te pagar mais.

Laerte - E da noite pro dia! Alguma coisa estranha aconteceu, eu queria falar com ele e nem olhava na minha cara! Até que ficou estabelecido que ele era o fabricante e não o dono da Dolly. Foram quatro anos, primeira instância, segunda instância...

Zezé Sack - Como você sobreviveu financeiramente?

Laerte - Voltei a trabalhar e a fazer meus negócios no mercado financeiro. Graças a Deus, sempre tive muitas amizades, e meus amigos me puseram a trabalhar.

Ziraldo - E quando voltou com a Dolly, aí foi sozinho?

Laerte - Sim, com a indenização montei uma fábrica pequena em Diadema.

Vinicius Rocha - Na época em que você lançou a Dolly, o Brasil era um mercado fechado, com poucos produtos, o consumidor era imaturo no processo de compra, não tinha percepção de marca. Boneca era Estrela, bicicleta era Caloi e refrigerante era Coca. Como você se posicionou pra alterar essa percepção?

Laerte - Eu só tinha diet. Primeiro o guaraná, depois o limão. E a percepção do mercado, em SP, era a de que diet era Dolly. Eu tinha o melhor diet do Brasil! A Coca-Cola lançou um diet mas não tinha interesse em vender aquilo.

Nei - Tanto que era horroroso. Intomável!

Laerte - Dava um gosto de remédio na boca. Você acha que uma empresa como a Coca-Cola, se quisesse vender refrigerante diet, lançaria uma merda daquela? Foi pra queimar o filme do produto diet! Pra vocês entenderem: Ribeirão Preto, Sorocaba e Uberlândia são grandes praças da Coca-Cola. Quem é o dono da indústria da Coca-Cola nessa região? A Família Biaggi, grandes usineiros. No Nordeste, é do Albano Franco.

Nei - O Tasso Jereissati é dono de que?

Laerte - Da Norsa, que representa a Coca-Cola em todo o Nordeste. Ô meu caro...

Ziraldo - Tudo gente do açúcar.

Laerte - Qual o interesse deles em fomentar o diet? Tem o poder político junto com o poder dos usineiros, junto com a Coca-Cola, de que mais precisam? Mandam prender e soltar.

Claudia - Quando começou mesmo a sua briga com a Coca-Cola?

Laerte - Ah, isso é inacreditável! Parece história de mentiroso, mas tenho provas de tudo. E tenho o depoimento do diretor da Coca-Cola confirmando que fizeram tudo. Em 94 montei a Diet Dolly Refrigerante, com o melhor produto diet do mercado, mas existia uma rejeição ao diet pelo fato de a Coca-Cola ter lançado um produto ruim. O mercado não ia.

Ziraldo - O da Brahma também era ruim, mas aí a Antártica lançou um diet com gosto similar ao que não era dietético.

Laerte - Hoje esse produto é excelente. Um dos melhores do mundo! E a própria Coca-Cola depois lançou um outro produto diet, só que chamando de light. Depois que a Dolly se lançou como 'o primeiro diet made in Brasil' não vão usar o nome diet nunca!

Ziraldo - Qual a diferença entre diet e light?

Laerte - No refrigerante, nenhuma.

Claudia - Diet é sem açúcar. Light é sem gordura.

Laerte - Mas no refrigerante é apenas questão de marketing. Light seria com baixa caloria, mas diet também é assim. NÃO QUEREM É USAR O DIET PORQUE DIET NO BRASIL É DOLLY.

Ziraldo - O volume de consumo da Dolly é tanto pras pessoas associarem diet com esse nome?

Laerte - Em São Paulo, sim. Ponho outdoor na rua e a Coca-Cola fica doidinha.

Nei - Tudo que é produto tem diet. Iogurte diet, leite diet, tem até caneta diet. Por que você não tem produtos diet na uva, por exemplo?

Laerte - Aí é uma questão de princípios. Estamos lançando o limão diet porque o nosso é ótimo. Nosso guaraná diet é o melhor do mercado. Não estou lançando uva diet porque não me permito fazer uma coisa qualquer. Na medida em que pesquisar e encontrar uma coisa boa pode ser que lance. Nosso controle de qualidade é feito a cada 15 minutos continuamente durante as 24 horas do dia. E sou o provador mais chato de todos. Adoro refrigerante! Só bebo refrigerante! Sou um apaixonado.

Claudio - Houve um crescimento forte dos isotônicos no mercado de bebidas?

Laerte - Não, os isotônicos não tem nem 1% do mercado.

Ziraldo - Mas a Gatorade não estava ameaçando a Coca-Cola no mundo?

Nei - Ameaçou tanto que compraram.

Laerte - A Gatorade agora é deles.

Ziraldo - A Coca-Cola continua tendo 50% do mercado no mundo? O que está ameaçando eles?

Laerte - A Dolly.

Ziraldo - Em São Paulo.

Laerte - Não, não... olha lá que a publicação que fizemos no Wall Street Journal está abalando a Coca-Cola.

Nei - A partir daí Bush faz um discurso e disse que quer ir a Marte pra botar a marca da Coca-Cola lá.

Ziraldo - Mas vamos historicamente.

Laerte - Em 95 eu tinha o Diet Dolly e o mercado queria um produto com açúcar. Como a marca Dolly tinha um recall não queríamos lançar outro produto que não fosse diet e mantivesse o mesmo nome. Lançamos a Top mas acabou virando mesmo Dolly com açúcar e é o melhor guaraná no mercado. Como eu disse, faço questão da qualidade. Sou chato com isso. O pessoal dá risada que na fábrica é tudo branquinho, as pessoas trabalham de branco... dizem que é feio, que qualquer sujinho aparece, mas, ué, é pra aparecer mesmo, não pode ter nada sujo.

Nei - Caminhão de lixo tem que ser branco.

Laerte - Então é uma qualidade boa com um preço honesto.

Ziraldo - Você tem o de dois litros e o de 350 ml. Não tem lata?

Laerte - Nem terei. A garrafa é muito mais evoluída. Ela tá limpa, você abre, toma, fecha...

Ziraldo - E rato não mija em cima.

Claudio - Não causa problema de reciclagem com as PET?

Laerte - Hoje são 100% reciclados. Chegou num ponto em que você não vê mais poluição de PET. Agora vale dinheiro, tem os caras que catam PET. Esses sacos de lixo é tudo feito com PET reciclado.

Nei - Os ecologistas não são contra as PET, que demoram milhões de ano para serem biodegradados?

Laerte - Onde tem interesse de dinheiro tem lobby. O pessoal do vidro faz lobby contra a PET. É o jogo.

Claudio - A turma do meio ambiente...

Laerte - Escuta, meu caro, às vezes a turma do meio ambiente tá sendo manipulada por interesses...

Ziraldo - Quanto porcento de seu custo é a PET?

Laerte - Não posso te dizer, mas o insumo mais caro é a PET e depois o açúcar.

Nei - Você nunca teve problema com o fornecedor de PET?

Laerte - Tive.

Nei - Não te vendem embalagens?

Laerte - É mais grave. Vou chegar lá. Trabalho com um tripé: (desenha um triângulo numa folha) Qualidade - publicidade - preços. Quando uma Coca-Cola custava dois reais, o dólar estava a R$ 0.85, ou seja, custava US$ 2.35 por garrafa. Hoje US$ 2.35 dá mais de sete reais. A Coca-Cola mandava de lucro pra fora, na cabeça, US$ 0.60 por garrafa. Era uma beleza de negócio. Aí nós entramos fazendo um produto concorrente. Hoje a Coca-Cola é obrigada a vender esse produto por menos que dois reais, senão não vende. Obrigamos a Coca-Cola a ir pra baixo. Eles não têm a competência e a agilidade de uma empresa de família. Aquilo é um monstro, ninguem se mexe, é uma empáfia, "nós somos a Coca-Cola"... Já nós, da Dolly, somos rapidinhos, temos um produto bom e um preço honesto.

Ziraldo - Quanto custa uma garrafinha de Dolly?

Laerte - Vamos falar de dois litros que é 80% do mercado. A Coca-Cola está a R$ 1.80 e nós estamos a R$ 1.10.

Ziraldo - A grandona vende mais que a petitinha?

Laerte - Muito mais!

Zezé - São as famílias que compram.

Ziraldo - E domingo no parque?

Laerte - Domingo no parque é só rico que vai. Pobre vai à praia e leva dois litros com ele.

Ziraldo - Mas em bar eu só vejo latinha!

Laerte - As grandes vendas são para supermercados. E agora com a crise foi pra dois litros mesmos, as vendas das latas caíram em 70%.

Ziraldo - A Coca-Cola não pode vender a R$ 1.10, né?

Laerte - Não, ela quebra. A R$ 1.80 eles estão quebrando.

Ziraldo - E por que você pode vender a esse preço?

Laerte - Meu escritório são oito caras e uma secretária. E tenho minha própria agência de publicidade.

Ziraldo - Vendendo quantos produtos?

Laerte - Guaraná, limão, laranja, uva, cola, diet... e tenho a água Santomas. É o nome do meu filho, Thomas.

Ziraldo - Você pode usar Dolly Cola?

Laerte - Posso por causa de uma briga com a Pepsi-Cola. A Coca-Cola perseguia todo mundo nos EUA porque não podiam usar a palavra 'cola' e a Pepsi comprovou que já existia o refrigerante cola antes da Coca, em 1914. A mulher do dono do refrigerante comprovou isso porque ela tinha uma foto de prova. Era uma empresa que a Coca-Cola quebrou, através de subornos.

Ziraldo - Conta essa história aí.

Laerte - A Pepsi foi oferecida três vezes pra Coca-Cola e não quiseram. O cara que comprou a Pepsi foi imediatamente processado pelo Woodruff, dono da Coca-Cola, por estar usando a expressão 'cola'. Esse cara da Pepsi, então, foi atrás e descobriu uma empresa que usava essa palavra antes da Coca-Cola. A Coca-Cola, quando viu que isso iria dar problema, deu um cheque pro cara dessa empresa ficar quieto. Por sorte, ele tirou uma foto dando sorriso e segurando o cheque. A mulher dele guardou essa foto. O dono da Pepsi foi ao Waldorf Astoria mostrar a foto pro Woodruff e aí fizeram um acordo.

Ricky - Então desde os seus primórdios a Coca-Cola não admite nenhum tipo de competição, mesmo que seja pequena.

Laerte - Esse diretor da Coca-Cola falou comigo: "Você sabe que a Coca-Cola tem que ter 55% de todos os seus mercados! Por que você entrou nisso?"

Ziraldo - Falou com você onde?

Laerte - Nessa conversa que filmei! Tenho 30 horas de fita!

Ziraldo - Vamos voltar à nossa história. Dolly-Cola é parecido com Coca-Cola?

Laerte - Sim, o sabor cola é de cola. AS PESSOAS NÃO SABEM QUE COLA É UMA NOZ QUE TEM ALTO TEOR DE CAFEÍNA. MAS NÓS TEMOS MAIS GÁS QUE A COCA-COLA.

Zélio - E isso é bom?

Laerte - Você perde gás. O prazo de validade do produto é quando o gás se perde totalmente. O gás é permeável às garrafas PET. Quando mais gás melhor a qualidade, mas o gás é caro.

Claudia - O gás entra como conservante?

Ziraldo - Não, é pra fazer bolinha.

Laerte - É um sabor. Ao contrário do pão, o refrigerante tem que ser fabricado gelado. As tubaínas antigamente não tinham qualidade porque não conseguiam fixar o gás. O refrigerante gelado quando é aberto não faz nenhuma bolha. Se você abre um refrigerante quente estoura tudo. E nosso sistema de frio é campeão.

Ziraldo - Quantas fábricas você tem hoje?

Laerte - Três. Uma em SP, uma no interior de SP, e outra no Rio. Com laboratórios, químicos...

Ziraldo - Já tentaram interditar as fábricas dizendo que não são limpas?

Laerte - Não, hoje não fazem mais isso. Não tem como, nossas fábricas são melhores que as deles.

Ziraldo - Por que a gente não acha Dolly aqui no Rio?

Laerte - Porque tô começando ainda, devagarinho, tô há um ano no Rio...

(toca o celular de um dos entrevistadores)

Nei - (brinca) É o presidente da Coca-Cola dizendo que cobrem qualquer proposta da Dolly!

Vinicius - Imagino que pra entrar nesse mercado você tenha feito um trabalho primoroso com distribuidores, já que até 2000 você não fazia marketing voltado para o consumidor final.

Laerte - O grande negócio no mundo é você comprar bem. O preço final é o mercado que faz. Então eu comprava bem e tentava vender o melhor possível. Fizemos um produto com a qualidade da Coca-Cola e um preço um pouco acima das tubaínas da vida. E com o terceiro ponto do tripé: propagandas boas tornando a marca simpática. Foi, foi, foi, ganhamos mercado.

Ziraldo - O que é tubaína?

Laerte - Originalmente era um refrigerante da Itu, da Schincariol.

Zélio - Agora é um genérico para refrigerantes mais baratos.

Laerte - A Coca-Cola tenta transformar essa palava numa coisa depreciativa. Para ela, tudo que não é Coca-Cola, Pepsi e Antártica é tubaineiro.

Vinicius - Inicialmente seu produto era destinado à classe média?

Laerte - Refrigerante tem uma grande vantagem: é para todas as classes.

Ricky - Não existiria um preconceito das classes mais altas contra o consumo de Dolly?

Laerte - Existe uma pesquisa interessante mostrando que o consumo de Omo é maior na periferia do que no Morumbi. Dá idéia de status. Na Barra da Tijuca o Dolly vende muito bem. O cara da Barra não tá preocupado em se exibir, ele quer saber se o produto é bom. Infelizmente, em alguns bairros as pessoas fazem questão de Coca-Cola achando que isso é sinal de status. Vamos ter que trabalhar em marketing pra que essas pessoas não tenham vergonha de colocar Dolly na mesa da festinha.

Ricky - E tem os que compram Dolly e colam o rótulo de Coca em cima.

Laerte - Exatamente! Acontece de colarem o rótulo do Kuat... Agora a DataFolha publicou uma pesquisa de recall onde o primeiro nome de refrigerante é Coca-Cola, o segundo Guaraná Antártica e o terceiro Dolly, na frente da Pepsi.

Ricky - Mas como é que você conseguiu penetrar no esquema de distribuição, que funciona muito com pacotes fechados?

Laerte - Eles não têm competência. O custo deles é muito elevado. Estão tentando fazer dumping e me quebrar há seis meses mas agora não vão conseguir mais.

Ricky - Existe "Só vendo Coca-Cola pra você se não comprar da Dolly"?

Laerte - Existiu. Só consegui voltar a ter uma fábrica em 95 por causa da popularização do PET. Da primeira vez que fiz o Dolly, era numa garrafinha de meia cerveja. Por que não fiz uma garrafa personalizada? Porque a Coca-Cola compraria todas as garrafas dos meus fornecedores, eu não teria como engarrafar e quebraria. A GARRAFA DE MEIA CERVEJA ERA DE TODOS AS EMPRESAS DE CERVEJA. AÍ A COCA-COLA INTRODUZIU A GARRAFA PET. FOI O MAIOR TIRO NO PÉ. TANTO QUE AGORA QUEREM FAZER A GARRAFA DE VIDRO DE NOVO. NÃO VAI FUNCIONAR. DAQUI A POUCO VÃO QUERER RELANÇAR O GORDINI TAMBÉM.

Ziraldo - A Coca-Cola tem um departamento que só fica pensando nessas coisas? Especialistas em ameaçar e quebrar outras empresas?

Laerte - Só tem! É pior do que possam imaginar.

Ricky - PET é matéria-prima. A pergunta era sobre a distribuição. Qual foi o pulo do gato? Atendimento personalizado?

Laerte - Mas o advento da PET tem a ver com a distribuição. Antes eu tinha que levar o vidro, naqueles engradados, e depois eu tinha que levar de volta os mesmos vidros... Agora eu entrego, vou embora e acabou. No Rio Grande do Sul a Coca-Cola comprou as garrafas todas - dizem que roubou inclusive muitos vidros da Pepsi - porque sem os cascos você não tinha como colocar o produto no mercado.

Claudia - Mas as grandes redes de supermercados não se comprometem com um único fornecedor?

Laerte - No começo isso era muito pesado. Tanto que agora é a primeira vez que estamos no Carrefour e no Pão de Açúcar.

Ricky - Aí volta a minha pergunta: como conseguiram isso? Não foi com a PET.

Laerte - Com dez anos da gente brigando e do consumidor pedindo. Meu caro, passa uma pessoa dizendo "quero comprar Dolly. Não tem não"? Depois outra pessoa. Todo dia pessoas falando isso...

Nei - Mas a Dolly fica no chão ou colocam na prateleira?

Laerte - Não, fica no meio da prateleira.

Nei - Nessa sua luta nunca houve uma solidariedade por parte dos outros nacionais?

Laerte - Não. O negócio da Schincariol, por exemplo, é cerveja. Está preocupada em fazer propaganda da Nova Schin pra se posicionar no mercado.

Vinicius - E o pequeno varejo? É o Sancho Pança do seu Don Quixote enfrentando moinhos de vento?

Laerte - Aí eu tenho um apoio danado! O PEQUENO VAREJO TEM UMA SIMPATIA MUITO GRANDE POR NÓS. ELES SE SENTEM MUITO OFENDIDOS PELOS GRANDES.

Ricky - Você entra num nicho de mercado que se baseia não só no fato de você ter um bom produto mas no dos outros serem antipatizados.

Laerte - Bem, é impressionante como as pessoas não gostam da Coca-Cola. A Pepsi não tem essa mesma rejeição. O índice de rejeição da Coca-Cola deve ser igual ao do Maluf.

Ziraldo - A Coca-Cola é o Maluf dos refrigerantes!

Claudio - É verdade que Coca-Cola vicia?

Laerte - É a cafeína. A dose de cafeína é elevada. Se você quiser ficar sem dormir tome Coca-Cola.

Fred Rozário - Coca-Cola também é boa pra tirar multa do vidro dos carros.

Claudio - É como detergente.

Laerte - Todos os sabores cola tem cafeína.

Ziraldo - O maior comprador de café de segunda no Brasil é a Coca-Cola.

Laerte - Não é só para os refrigerantes, eles tem empresas lá fora que fabricam café solúvel.

Nei - Você pretende conquistar parcelas de mercado fora do Brasil?

Laerte - Não é um sonho meu. Até posso, mas não agora.

Nei - Ouvi dizer que a Dolly vai substituir a Lubrax na camisa do Flamengo?

Laerte - Não gosto muito desse negócio de time. Sou palmeirense e meu cunhado é sãopaulino. Ele de bronca não compra nada da Parmalat! Tenho um pouco de receio então dessas coisas...

(O parêntese é meu: eu também odeio a parmalat e passei a boicotá-la depois que a mesma comprou a final da Copa do Brasil de 1999, entregando-a para o inexpressivo juventude-rs. E não é que deu certo? Hoje está comprovado que eles eram realmente uma corja de ladrões e a empresa está falida! fecha parêntese)

Ricky - Bem, vamos ao que interessa: como anda agora a briga de vocês com a Coca-Cola? Eu vi que vocês encheram São Paulo de outdoors: 'Brasileiro não tem medo de estrangeiro'.

Laerte - Bom, eles fizeram uma armação com os fornecedores, a Receita Federal, o Ministério Público, através de espionagem e sabotagem (escreve cada um desses itens num papel). Era a estratégia deles pra quebrar a gente.

Ziraldo - Quem te contou isso?

Laerte - Isso está no depoimento do diretor da Coca-Cola que eu filmei. O vídeo é didático. O primeiro programa que coloquei no ar na TV foi justamente explicando porque eles fizeram isso. E esse camarada era o cérebro da coisa. Ele fala: "A gente fez uma análise de que o sabor guaraná, liderado por vocês, estava tirando vendas do sabor cola. A Coca-Cola tinha que ter uma reação. Partimos pra cima de vocês". Aí ele fala das coisas que tentaram mas nada acontecia.

Ziraldo - Por que ele deixou isso ser gravado?

Laerte - Oficialmente, ele está fora da Coca-Cola.

Ziraldo - Mas ele queria entregar todo o ouro?

Zezé - Ele está pra Coca-Cola como o O´Neill pro Bush?

Laerte - Não, ele queria me convencer a vender a marca enquanto ainda valia alguma coisa. E avisou: "Nós vamos te quebrar". Era de uma arrogância! Eu dizia que ia botar pra quebrar e ele dizia que eu nao ia conseguir espaço em nenhuma publicação.

Ricky - Qual foi, por exemplo, a estratégia pra atacar vocês pelos fornecedores?

Laerte - Ele foi nos maiores fornecedores e falou: "A partir do dia 15 de outubro de 2000 não quero que vocês forneçam pra Dolly. Quero quebrar a Dolly e se vocês venderem pra ela mando a Receita Federal arrochar vocês".

Ricky - Isso foi um blefe dele ou realmente ele tinha esse poder de pressionar a Receita?

Laerte - Foi feita uma Portaria da Receita Federal - conhecida inclusive pelo nome dele, Portaria Capistrano - em que todos os fornecedores de garrafas e outros insumos são obrigados a mandar todos seus dados de venda para a Receita. Se ele diz "quem vender pra Dolly será cortado como fornecedor", como iria manter esse controle?

Zezé - Tinha que ter alguém lá dentro.

Laerte - Esse caso já está na Corregedoria da Receita Federal, com Dr. Moacir Leão, e na Corregedoria do Ministério Público Federal, com Wagner Gonçalves.

Ricky - Entre esses itens, o mais intrigante é a sabotagem. Que tipo de coisa faziam?

Laerte - Fizeram um e-mail criminoso dizendo que Dolly causava câncer e que ninguém deveria tomar Dolly. Detalhavam quantas pessoas tinham dado entrada no Hospital das Clínicas e no Instituto Fleury. Fizeram um spam disso. Imprimiram também esse e-mail e afixaram em tudo quanto é ponto de ônibus. Puseram em academias, escolas... Nossas vendas fizeram assim: (direto pra baixo). O fornecedor pressionado, a fiscalização dando pau em cima: a gente dava até senha pra fiscal que nos visitava. O Ministério Público Federal pedindo minha prisão preventiva e o bloqueio dos meus bens, por uma empresa encerrada no estado, na Receita Federal e no INSS! Se alguém teve empresa, sabe que chatice é encerrar no INSS. Encerrei tudo mas a base de dados dessa empresa na Receita Federal sumiu. Capistrano fala: "A estratégia era de perturbação: buscar tudo do seu passado". Ele conta como foi pago ao Ministério Púbico. Fala de todo o Caixa Dois da Coca-Cola. Um dos caras plantados lá dentro, Fábio Mello, era sócio do Jorge Gigante - então presidente da Coca-Cola - que por sua vez é sócio do Hugo Carleti, o maior mafioso do Brasil. Os dois caras que foram plantados estão sendo investigados na Operação Anaconda. Há seis meses ninguém acreditava em mim, achavam que estava exagerando, e estão aí os caras! Eu mesmo tenho um vídeo de uma conversa minha com um desses caras onde ele conta que ganhava um milhão por cada ponto de mercado recuperado, pago pela Coca-Cola.

Fred - Quando caíram as vendas, como você reverteu esse quadro?

Laerte - Trabalhando, economizando e indo pro pau. Nessas horas não adianta você ficar se queixando da vida... Aumentamos a propaganda e fomos pra briga.

Ziraldo - E os papeizinhos nos postes?

Laerte - Fizemos boletins de ocorrência mas não tínhamos como provar que foi a Coca-Cola.

Ziraldo - Por que você não colocou anúncios comprovando que Dolly não dava câncer?

Laerte - Seria uma antipropaganda.

Marli Gonçalves - Quem não sabia da historia ficaria sabendo.

Laerte - E na dúvida não iam comprar mais Dolly.

Ziraldo - Foi a mesma coisa de quando explodiram bancas pra acabar com O Pasquim. Bastou explodirem três pra nenhum jornaleiro querer vender O Pasquim.

Laerte - Nesse vídeo eu pergunto: "E esse negócio de Ministério Público que vocês armaram pra acabar com meu crédito?" "Ah, pra você afeta muito mais o negócio do e-mail do que isso..." Nem perguntei sobre o e-mail, foi ele quem falou! "Vocês saírem com seus homens de poste em poste colocando isso foi uma sacanagem!" Ele virou pra mim: "Vale tudo".

Zezé - Mas ainda não entendi: por que ele falou tudo isso pra você?

Laerte - Ele tinha certeza de que não iria conseguir fazer nada. No segundo programa que foi ao ar tenho ele dizendo: "É melhor você vender enquanto vale alguma coisa. Vou te ferrar. Vou te fuder. É melhor vender agora".

Ricky - Ele estava mostrando o tamanho da trolha.

Laerte - Exatamente! "Venda enquanto puder que depois você não vai agüentar!" E ele fala claramente como fez para o dinheiro comprar o Ministério Público. Está tudo lá. Então o Ministério Público entrou com uma ação criminal e sumiu a base de dados. Ele falou como cooptaram o contador. Depois de cinco anos, quando tudo teria prescrito, abriram a empresa e deram uma multa absurda. Com isso o procurador pediu bloqueio dos meus bens e minha prisão preventiva. Pediu uma ação civil pública com tutela antecipada, paralisando as atividades da Dolly em todo o território nacional. Mas quando apresentamos nossa argumentação a juíza mandou indiciar o fiscal e o contador. Sabem o que fez o procurador, que estava há um ano e meio vendo isso? Se declarou suspeito e ó! (bate uma mão na outra em gesto de quem salta fora) E eu não posso processar o cara porque é do Ministério Público.

Ziraldo - Se declarou suspeito como?

Claudio - Não poderia participar do processo por um motivo ou outro...

Ricky - "Não posso participar porque recebi uma grana preta..."

Laerte - Fomos no Cade, no SDE, e está uma confusão danada. Tudo bem. A Coca-Cola não fazia nada, se fazendo de boba, mas cercaram tudo de modo que não saía na imprensa. Como a coisa não andava, fizemos uma representação para a Comissão de Defesa do Consumidor.

Nei - Adianta alguma coisa? O lobby da Coca-Cola no Congresso deve ser gigantesco.

Laerte - É, abafa daqui, abafa de lá, a coisa continuava parada. Aí fizemos uma publicação no Wall Street Journal.

Marli - No dia 18 de dezembro. Foi uma operação complicadíssima. Eles não publicam qualquer coisa.

Laerte - Checaram tudo pra ver se era verdade.

Ziraldo - Mesmo sendo matéria paga?

Laerte - Tivemos que provar tudo, manda fita, manda processo... denunciamos todas as práticas da Coca-Cola. Aí houve uma manobra na Comissão de Defesa do Consumidor e arquivaram o negócio. E AGORA VOU REVELAR UMA COISA QUE ELES VÃO NEGAR MAS QUE EU TENHO COMO PROVAR: ACABARAM DE CONTRATAR ALEXANDRE SANTOS, AQUELE LOBISTA QUE FOI PRESO. ALEXANDRE SANTOS FOI CONTRATADO PELA COCA-COLA PRO CASO DOLLY, PRA NÃO DEIXAR ANDAR NADA NO CONGRESSO NACIONAL!

Zezé - Não é aquele do caso da Veja? É um dos maiores lobistas de Brasília.

Laerte - E um dos mais sujos que tem. Contratado especificamente pra tratar no Congresso do Caso Dolly. E onde tem Alexandre Santos tem corrupção.

Marli - Os transgênicos estão na mão dele. Os medicamentos específicos estão na mão dele.

Laerte - Gente, o contrato é claro: 'para parar com a Dolly'. Foi montado uma empresa nova por Alexandre Santos só pra pegar esse negócio.

Ziraldo - O que ele vai brecar no Congresso?

Laerte - Tudo. Temos uma ação no SDE e no Cade mostrando a concorrência desleal e o abuso de poder econômico.

Ziraldo - Então isso não vai andar?

Laerte - Pagaram uma fortuna pra que não andasse. Se você ligar pra Coca-Cola, vão dizer que não contrataram ninguém. Qual é o lance? Quem assinou o contrato foi a Recofarma, que faz o extrato da Coca-Cola em Manaus.

Marli - Eles fazem muito isso.

Laerte - Tanto que a contribuição pro Lula é com cheque da Recofarma.

Nei - Foi boa a participação da Coca-Cola na campanha do Lula?

Laerte - Foi algo formal. Uns quinhentos paus.

Marli - Só pra vocês entenderem: na Comissão de Defesa do Consumidor o processo já estava indo pra audiência pública. É o primeiro passo para uma CPI. Agora é só procurarem na pauta da Comissão pra verem como o processo foi tirado.

Laerte - É o Alexandre Santos pagando todo mundo lá.

Nei - Quem é o presidente dessa Comissão?

Laerte - Givaldo Carimbão.

Marli - E Júlio Lopes é o vice.

Laerte - Arquivaram tudo, mas nós vamos brigar de novo agora em fevereiro. Ah! Fico pelado lá na frente do Congresso e quero ver se não vão colocar isso de novo em andamento!

Ziraldo - Do que especificamente você está reclamando no Cade, no SDE, no Congresso e na polícia?

Laerte - Na polícia: sabotagem através do e-mail. No Cade: abuso de poder econômico. No SDE: práticas criminais e corruptas pra tirar a gente do mercado. Eles estão tentando abafar tudo mas as práticas da Coca-Cola precisam ser apuradas.

Ziraldo - Você está com os pedidos formalizados?

Laerte - E os processos instaurados! Agora, vai sair, eles não vão conseguir parar isso aí! Não vão! É uma vergonha!

Ricky - Municiado de tantos fatos interessantes, você certamente procurou a imprensa. Qual foi a reação?

Laerte - Olha, supreendentemente, bem, dentro da medida do possível.

Zélio - O que é a medida do possível?

Laerte - Você há de convir que a maior verba publicitária do mundo é a da Coca-Cola e que a imprensa tá numa pindaíba desgraçada.

Ziraldo - A Coca-Cola não anuncia muito na imprensa escrita, né.

Laerte - Mas dão dinheiro pra outras coisas.

Marli - Tem associações para a educação jovem, para o teatro amador...

Ziraldo - Eles vão alegar inclusive que a Coca-Cola tem um fator social, pois produz tantos mil empregos...

Laerte - Então podemos justificar o crime! Quantas pessoas trabalham no tráfico? E se a Coca-Cola sair do mercado, a gente absorve todos esses empregados... A imprensa até cobre, mas em seguida vem uma pressão brutal por parte da Coca-Cola. Mesmo assim, todo mundo lê. A população sabe dessa briga. Lembram no regime militar quando queriam abafar as coisas? Abafavam e não tinha jeito.

Ricky - Essa sua causa alcançou a consciência do público recentemente quando você comprou um horário na Rede TV. O que te levou a fazer isso?

Laerte - Ninguém me dava espaço na televisão. O negócio da Parmalat tem meio bloco no Jornal Nacional. Um baita de um esquema desses, aqui mesmo no Brasil, e maior do que a Parmalat, com tudo comprovado, ninguém fala nada! Ah é? Então comprei um programa pra eu falar.

Marli - E foi impressionante a repercussão desse programa! O volume de correspondência que nós temos recebido!

Wagner Martins - Com cinco minutos de programa todo mundo que estava na internet começou a receber notícias do que acontecia na Rede TV. Acompanho este caso desde 2001, mas foi com esse programa - onde você expôs os fatos numa linguagem de dramaturgia - que a podridão da Coca-Cola ficou evidente pro povo.

Laerte - Entreguei o primeiro programa só na véspera porque a Coca-Cola poderia tentar tirá-la do ar. Tanto que depois do segundo programa ele saiu do ar sem a menor satisfação!

Wagner - Você tinha comprado cinco horários, né?

Laerte - Comprado e pago! Antecipado!

Nei - Veicularam dois e não te devolveram o dinheiro?

Laerte - Ninguém fala nada! "Olha, seu programa não pode mais ir pro ar..." "Mas por que não pode?" "Olha, não sei... preciso ver com fulano..." "Cês tão brincando comigo... isso é uma vergonha!" É como Jânio Quadros, são as forças ocultas... Vão querer compensar com comerciais e tudo bem. Mas eu quero é o programa! Sou um grande anunciante deles e posso tirar todos os meus anúncios na mesma hora. Imagina!

Claudio - Qual foi a audiência do programa?

Laerte - Três pontos a uma hora da manhã! A maior audiência da Rede TV no domingo! O João Dória deu 0.1% de audiência.

Wagner - No seu programa você fala de uma CPI no estado de São Paulo investigando fraudes contábeis no balanço da Coca-Cola.

Ricky - Ah, quer dizer que a Coca-Cola tá ali junto com a Enron e a Parmalat, no setor de maquiagem e cosméticos?

Laerte - Pior! E eu afirmo isso e não levo nenhum processo, né. A Coca-Cola é podre! A Coca-Cola é pior do que a Parmalat! Eu, Laerte Codonho, estou falando e provo! E aí peço pro presidente da República me receber e ele não me recebe. Recebeu o presidente da Coca-Cola, que foi lá dizer que faria restaurante a um real. Cadê o restaurante a um real? Enquanto isso, a denúncia que eu tenho acaba com a fome no Brasil durante 20 anos.

Ziraldo - Com a fome? Como?

Laerte - A Coca-Cola tem a maior sonegação do Brasil: mais de R$ 7 bilhões. E eu provo!

Nei - Tem um processo gigantesco aqui no Rio do ICMS com a Coca-Cola.

Laerte - Fica frio, não posso falar agora, mas isso aí não é nada.

Nei - Laerte, e a tua vida, que risco corre?

Laerte - Todo o risco do mundo.

Claudio - Mas hoje se acontecer alguma coisa com ele, todo mundo tá sabendo.

Nei - Mas eu, se fosse a Coca-Cola poderia eliminá-lo e foda-se. Você acha que a Coca-Cola vai se preocupar com isso?

LAERTE - MAS, OU FAÇO AS COISAS QUE TÔ FAZENDO, OU CORRO MAIS RISCO. NO DIA EM QUE ABRI A BOCA, NA PRIMEIRA VEZ QUE FUI À TELEVISÃO, ERAM SEIS E MEIA DA TARDE E ÀS ONZE MATARAM NELSON SCHINCARIOL.

Ziraldo - Você tem notícias de que a história da Schincariol é parecida com a sua?

Laerte - Eles sofreram bastante pressão. Recentemente, inventaram uma fita de um camarada e aí sumiu tudo. Mas isso é outra história. Basta a minha. E é daqui pra frente que a minha história vai ficar boa. E vou falar uma coisa: quero que eles me paguem tudo em que me deram prejuízo! Com isso e com o que vier de dinheiro a mais vou fomentar um monte de projetos sociais. Não vou ficar quieto. Fiz o primeiro diet no Brasil e agora vou mostrar pro mundo o que é a Coca-Cola! São podres, a contabilidade deles é uma piada e são os maiores sonegadores do Brasil. O que mais preciso falar? E tem mais: são assassinos. Segundo esse diretor me falou, no México eles não tem concorrência porque mandam matar todo mundo.

Nei - Você tem algum tipo de documento que gostaria de entregar apenas a uma certa pessoa?

Laerte - Sim. Só ao presidente da República.

Nei - Por que ao presidente?

Laerte - É uma pessoa que respeito. Sou entusiasta do governo dele e torço para que dê certo.

Nei - Você não confiaria no ministro da Justiça?

Laerte - Não é questão de confiança, é que prefiro o presidente.

Claudio - O ministro já foi advogado da Coca-Cola...

Laerte - Não tenho um documento-chave pra entregar ao presidente: tenho vários documentos. Meu caro, a Coca-Cola não fala nada por quê?

Nei - Quer dizer então que sua vida está garantida nesses documentos espalhados pelo mundo? Teu colete de aço taí?

Laerte - Se me acontecer qualquer coisa, a mim ou à minha família, a Coca-Cola é a culpada. E vai ser o maior escândalo! Por favor, se eu morrer, vocês façam alguma coisa.

Zezé - Você começou nisso com 26 anos. Hoje está com 43. Se não tivesse ocorrida toda essa problemática, abrindo e fechando fábricas, onde você estaria hoje?

Claudio - Seria presidente da Coca-Cola!

Nei - Ou então presidente do México.

Laerte - Não sei. O futuro é difícil da gente prever. A vida é gostosa por causa disso.

Nei - A presidência da Coca-Cola não te interessaria?

Laerte - Não mesmo! O cara é um coitado, não manda nada, é o maior pepino, só jogos de intriga o tempo todo. Ninguém trabalha ali, é só um querendo fuder o outro o tempo todo.

Ziraldo - É como aqueles filmes americanos de empresários.

Laerte - Não precisa nem ver filme americano. Assiste ao meu vídeo. Tá tudo ali. É uma questão de eficiência. Se conseguirmos manter essa posição no mercado pode estar certo de que em uma década estaremos disputando o primeiro lugar com a Coca-Cola. Não tenho estrutura pra distribuição em bares e padarias, mas daqui a alguns anos a gente consegue. E o Brasil é o segundo mercado de refrigerantes do mundo!

Ziraldo - Mas é o vigésimo em faturamento da Coca-Cola.

Laerte - Graças a nós. Em SP tinha uma engarrafadora, da qual a Coca-Cola tinha 40%, que quebrou por causa da gente. Eles queriam continuar vendendo a U$ 2.20 a garrafa mas não conseguiram porque tinha essa concorrência. E nós somos uma concorrência com muito mais agilidade.

Ricky - Isso então é reprise daquela história onde os dinossauros acabaram sendo extintos?

Laerte - Exatamente: Darwin. A Coca-Cola chegou num ponto onde é fim de linha. É uma estatal mundial.


::: Não tenho nada a ver com a dolly, nem com o pasquim e muito menos com a coca-cola. E quem me conhece sabe que eu odeio paulista, mas valorizo esse sujeito pela sua luta obstinada contra o império. Torço por ele mas não acredito que ele tenha chances contra o "rolo compressor", e acredito que ele tenha o mesmo fim do cara da Schincariol (pelo menos ele tem consciência de que isso não está muito longe de acontecer...). E só para reforçar: está tudo lá em :::